sábado, 2 de novembro de 2013

Um caso (ainda) para pensar


http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3510995&seccao=Correspondentes%20em%20Portugal&page=-1



Nem tudo é rumor Alison Roberts !







Um caso (ainda) para pensar

O triste caso do desaparecimento de Madeleine McCann ainda mais triste é por ter estado durante muito tempo destinado, pelo que parecia, a gerar mal-entendidos entre Portugal e o Reino Unido.

A começar pelo rumor - depois desvendado como tal pela própria Polícia Judiciária, como consta nos ficheiros do caso, mas que ainda persiste em Portugal - de que os pais da menina ligaram para uma cadeia de televisão britânica antes de a polícia local ter sido alertada.

E, no Reino Unido, pela crença forte de que Gonçalo Amaral, inspetor da Polícia Judiciária que liderou a investigação policial sobre o desaparecimento da menina britânica nos primeiros meses, tenha sido depois demitido e publicamente desonrado pelos seus superiores - quando até o diretor nacional da PJ da altura recentemente testemunhou que ele "merece apreço profissional".

Com a recente emissão pela BBC de um programa sobre o trabalho de uma equipa da Scotland Yard para rever o caso, surgiram novas incompreensões mútuas entre os dois países. Nos media britânicos questionou-se porque raio o programa não foi emitido em Portugal.

Jornalistas da própria BBC ligaram para Lisboa para tentar perceber os motivos para essa suposta recusa da parte dos colegas portugueses. As emissoras portuguesas, entretanto, deram a entender por cá que o direito de emissão lhes tinha sido vedado. A verdade, essa, fica mais uma vez perdida algures entre os dois países.

Entretanto, nas sessões no Palácio da Justiça em Lisboa do processo civil dos McCann contra Amaral, que ainda continua, houve dias em que nem um único jornalista português estava presente.

Entretanto, uma mão-cheia de repórteres britânicos esforçava-se para entender o que foi dito pela juíza e pelos advogados numa língua que não entendiam. A situação parecia garantir o surgimento de mais mal-entendidos, rumores e ressentimentos.

Agora, com a decisão da parte da procuradora-geral da República de reabrir o inquérito criminal, os dois lados estão aparentemente de novo em sintonia.

Mas é bem possível que a imposição obrigatória em Portugal do segredo de justiça - apesar de a Scotland Yard continuar com briefings sobre a sua investigação paralela - acabe por gerar o mesmo tipo de mal-entendidos que gerou no passado.

* jornalista "freelance" britânica