terça-feira, 5 de novembro de 2013

o vício de beber o sofrimento por uma palhinha












Andam à caça de gambozinos
A fraca impressão que tenho da Scotland Yard fica a dever-se ao desprezo que o astuto Sherlock Holmes dispensava ao inspetor Lestrade, polícia esforçado, dotado da tenacidade e determinação de um buldogue, mas absolutamente desprovido de capacidade para resolver crimes com algum grau de dificuldade.
Como todos sabemos, não há uma segunda oportunidade para deixar uma boa primeira impressão e, como agravante, a má conta em que tinha a Scotland Yard, fabricada na leitura de Conan Doyle, não melhorou (pelo contrário) após ter sido apresentado ao bronco inspetor Claud Eustace Teal, que está sempre a ser ridicularizado por Simon Templar nas aventuras do Santo, de Leslie Charteris.
Esta minha opinião piorou mal soube que, na vida real, a Scotland Yard já gastou 6,5 milhões de euros na enorme caçada aos gambozinos, denominada Operação Grange, em que mantém entretidos, sob o comando do inspetor-chefe Andy Redwood, 37 detetives que seguem 195 linhas de investigação, definidas a partir de 40 mil pistas e documentos recolhidos em Portugal desde que Maddie desapareceu na noite de 2 maio de 2007, de um aldeamento na praia da Luz, em Lagos.
O caso Maddie ganhou um novo fôlego com o recorde de audiências (7,3 milhões de espectadores) do programa Crimewatch da BBC e as mil chamadas telefónicas de pessoas que se acharam na posse de informações sobre o assunto que deviam partilhar com as autoridades.
O desaparecimento de Maddie, que ainda não tinha quatro anos, quando imprudentemente os pais a deixaram sozinha em casa com os irmãos mais novos, teve a maior cobertura mediática de sempre - toda a gente tinha uma opinião sobre o assunto - destronando o célebre rapto do bebé Lindbergh deste triste Guinness.
Seis anos depois, esta telenovela da vida real continua em exibição, porque garante boas audiências e vai sendo alimentada com novos ingredientes, como a tese do rapto, por um trio de ciganos ou um cabo-verdiano que convenientemente morreu no entretanto, e a publicitação de retratos--robô que transformam em possíveis suspeitos todos os homens de cabelo castanho, entre 20 e 40 anos, de estatura média e sem sinais particulares.
Em face de um ultimatum britânico, apresentado com vaselina (não ameaçaram dinamitar a Velha Aliança, como os outros fizeram com a tal parceria estratégica), a PJ não só reabriu a investigação como, orgulhosa, revelou ter há dois anos, no Porto, cinco inspetores a reanalisar permanentemente o caso (será que a troika sabe disso?).
Os ingleses são muito bons a fazer novelas, mas apesar de tudo prefiro mil vezes o Downton Abbey à novela Maddie, que precisa urgentemente de um fim definitivo, sem porta aberta para nova sequela.
Para o efeito, sugiro à Scotland Yard a contratação de Sherlock Holmes (encontram-no amanhã à noite na Fox, a partir das 22.15 h), imbatível a resolver mistérios com a sua lógica dedutiva e métodos científicos. E aconselho Kate e Gerry a largarem o vício de beber o sofrimento por uma palhinha - e a perceberem que está bem chorar os mortos, mas também temos de os deixar partir.