sábado, 9 de novembro de 2013

Cabo Verde injustiçado




http://www.asemana.publ.cv/spip.php?article93564&ak=1

Por Mário Matos 





Case Closed! 09 Novembro 2013

O “caso Maddie McCann” correu mundo. Tem sido dos mais mediáticos não apenas em Portugal onde ocorreu, nem tão-somente na Grã-Bretanha de onde são originários os McCann. Demonstração disso é o caso já ser uma das entradas da Wikipédia em pelo menos cinco línguas.
Aliás, a sua ampla e demorada mediatização em Portugal, retomada por estes dias com a reabertura do processo com novos suspeitos, foi motivo de crítica por parte de alguns sectores da sociedade portuguesa porque várias têm sido as crianças portuguesas raptadas e desaparecidas até agora, sem que os pais tenham a mínima prova de que se encontram vivas, e que não tiveram nem de perto nem de longe a cobertura mediática e, presume-se, a atenção na investigação que este caso tem tido.
Na reabertura do processo de investigação, o mais recente suspeito do rapto e presumível assassino de Maddie McCann é um cabo-verdiano, com antecedente criminal, e que terá trabalhado no hotel em que estava alojada a família McCann, no Algarve. O agora suspeito veio a falecer num acidente com um tractor em 2009 e, no momento do rapto, já não trabalhava na unidade hoteleira, segundo o Correio da Manhã. Foi esse facto que terá levado a Polícia Judiciária, aquando do rapto em Maio de 2007, a não o ter incluído na lista dos empregados do hotel a serem investigados.
Mas... suspeitos não têm faltado neste caso. O próprio pai da Maddie foi considerado suspeito com as peripécias conhecidas nos jornais pelo impacto e reacções ao mais alto nível na Inglaterra, sinal da influência social, política e financeira dos McCann... Recentemente o Sunday Times publicou uma peça sobre retratos-robot feitos por um investigador particular contratado pela família, onde se questiona os motivos que terão levado os McCann a esconder essas pistas, consideradas fortes, durante cinco anos, pois elas são de 2008. Dois desses e-fits (Electronic Facial Identification Technique) publicados no Sunday Times são de caucasianos. Foram elaborados a partir da descrição de testemunhas que terão visto um homem com uma criança na Praia da Luz, no local e momento em que se supõe o crime terá sido cometido.
Agora, na reabertura do processo pela Polícia Judiciária portuguesa haveria um rol de novos suspeitos, mas considerou-se o ex-empregado do resort o suspeito mais consistente. O móbil do crime, segundo os jornais, terá sido retaliação ao resort pelo despedimento, para pôr em causa a segurança do hotel... Pelo que se tem lido sobre esse recente desenvolvimento do caso, a PJ considera que a criança foi assassinada.
É impossível, pelo menos para nós cabo-verdianos que recusamos apagar a memória de factos semelhantes do passado, não pensar que este desfecho, que deve estar erigido em certeza na opinião pública pela sua mediatização, resulta numa conveniência para quase todos os envolvidos. Quase todos porque a família do agora suspeito estará certamente a passar por um calvário...
Suspeito com antecedente criminal, com razões para se vingar da direcção do hotel, segundo a lógica da investigação policial quanto ao móbil, que não se pode defender por já ter falecido; família de imigrantes “de cor” provavelmente de parcos recursos que, por isso, também não pode sustentar um bom advogado para defender o bom-nome do suspeito e o seu, então não é o melhor suspeito? Case closed!
E falamos na recusa de apagar a memória porque neste Portugal “multicultural” vários têm sido os casos escabrosos em que cabo-verdianos (e não “luso-caboverdianos” ou portugueses como quando ganhamos medalhas ou nos distinguimos na Ciência, na Cultura ou noutros sectores), saltam para as primeiras páginas dos jornais e são julgados pela opinião pública para, pouco tempo depois, se descobrir que afinal os autores dos crimes não eram cabo-verdianos e nada tinham a ver com Cabo Verde...
Foi assim aquando de um triplo homicídio de trabalhadores da Carris, se a memória não nos falha, barbaramente assassinados com arma branca cuja autoria por cabo-verdiano foi primeira página dos jornais para depois se descobrir que o autor não era natural de Cabo Verde. A notícia do desmentido saiu num cantinho de uma página interior, sem impacto mediático quando o julgamento público já tinha sido feito e gerado um ambiente quase de caça ao homem (aos cabo-verdianos). Durante algum tempo muitos recearam assumir-se publicamente como cabo-verdianos...
Outro caso, de assassinato de uma criança, com acusação pública, de primeira página, de antropofagia - matou-se para se lhe comer o fígado, rezava uma das peças jornalísticas - também foi atribuído a um cabo-verdiano para depois se concluir que não havia nenhum cabo-verdiano culpado do crime e, como sempre, sem honras de primeira página no desmentido.
Citam-se apenas esses dois casos - os mais chocantes - como exemplos de um comportamento recorrente de alguns média portugueses cujos preconceitos raciais em relação aos cabo-verdianos - é mesmo disso que se trata - são conhecidos porque reiterados. Aliás, é um desses jornais que, nos idos de 80 do século passado, publicou uma notícia sobre pessoas a morrer de fome em Cabo Verde ilustrada com uma fotografia que se pensa ser da Etiópia!
Nesse momento, o que nós cabo-verdianos devemos fazer é, onde quer que estejamos, apoiar financeiramente, com o que cada um puder, a família do suspeito para que ela constitua um advogado capaz de a defender e fazer justiça ao seu ente querido, para contribuir para se chegar à verdade sem preconceitos e julgamentos públicos. Isso independentemente de qualquer acção de acompanhamento do caso pelo Estado de Cabo Verde em relação a esse seu cidadão e familiares.
marzim54@gmail.com