segunda-feira, 4 de março de 2013

Caso Rui Pedro...........







O filho que não voltou

e:


Hernâni Carvalho , em

http://sic.sapo.pt/Programas/Queridajulia/2013/03/04/atualidade-criminal-de-4-de-marco




"HC: houve uma leitura diferente (????) E , isto não fica por aqui como é óbvio porque Afonso Dias, o ÚNICO ARGUIDO NESTES 15 ANOS, o único grande suspeito disto , vai agora recorrer para o Supremo, claro. O Supremo não vê matérias de facto, vê matérias de Direito. Vamos ver. É uma grande diferença da que o Tribunal de 1ª Instância tinha dado .  Curiosamente uma das testemunhas no Tribunal de 1ª Instância tinha sido uma senhora, que era prostituta à época, quando o Rui Pedro desapareceu. E, o jornal O Crime diz na semana passada e, esta semana diz a TvMais , que uma carta escrita por uma reclusa conta detalhes, que só quem lá estivesse estado , poderia contar sobre o que aconteceu de facto ao Rui Pedro. 


Agora deixa-me dizer-te o seguinte (à JP) : tantas vezes dizemos aqui que a PJ esteve bem aqui ou não esteve ali , alguns elementos da PJ estiveram muito mal faz hoje 15 anos. Estiveram mesmo muito mal. Um deles mentiu ;  um deles mentiu a diversas autoridades dizendo que a Mãe do Rui Pedro não tinha avisado que o Menino tinha epilepsia . Ora, há uma Médica, especialista nesta área, que diz que o Menino até pode ter perdido a memória , por ter tido um ataque de epilepsia por não ter os medicamentos tomados. 

Se o Menino foi raptado, o Menino há 15 anos, quem rapta uma Criança não sabe se tinha ou não e, pouca gente sabia que ele tinha aquela doença, e não sabe que a Criança precisaria de tomar os medicamentos. Passados alguns dias sem os medicamentos poderia ter desencadeado uma crise. Este inspector ocultou isto este tempo todo. Mais, veio para os jornais dizer que a Família não o tinha avisado! Quando é sabido que a grande preocupação do Rui Pedro era precisamente a sua epilepsia. Acabou por reconhecer aqui há um ano ao Tribunal que tinha mentido e que o fizera porque estava muito zangado com as críticas que eram feitas à investigação. 

Vamos dizer a verdade, esta investigação só começou a ter sucesso quando a Jornalista Ana Leal se empenhou pessoalmente neste caso . É preciso dizer o nome deles/as Jornalistas! Dizer o nome da Felícia Cabrita quando se fala na Casa Pia. É preciso dizer o nome da Ana Leal quando se fala no Rui Pedro .

Porquê? Porque um outro inspector esteve mais preocupado em assediar a Mãe do Rui Pedro do que propriamente a investigar. Portanto, nos primeiros dias de investigação houve muitas asneiras que foram feitas e, provavelmente este Afonso ou outro Afonso qualquer teriam explicado isto de outra maneira , se o empenho tivesse sido próprio. Aliás, veja-se a diferença entre a investigação feita pela 1ª Brigada e a seguinte. 

Para teres uma ideia (JP) só foi feita uma reconstituição com a 2ª Brigada da PJ . E, essa sim! Empenhada em recolher provas, em ver sítios, em recolher coisa, em fazer reconstituição que é uma coisa que em Investigação Criminal é vital, dizem os manuais todos. Para perceber se as coisas encaixam . Portanto, esta Filomena Teixeira que  vem ficando cada vez mais pequena ao longo dos anos por um sofrimento; desgastada, completamente desgastada, também foi vítima destas circunstâncias. Também foi vítima o facto de não ser médica, não ser rica e não ser inglesa. Porque se compararmos a diferença do que este País deu em termos de meios à busca do Rui Pedro comparativamente com o que deu à busca da Maddie ficamos envergonhados para o resto da vida. Ficamos! 

……. Saber o que aconteceu ao Rui Pedro é a única coisa que se quer. Saber o que aconteceu aquela Criança. Desapareceu mesmo? Mas desapareceu para a mão de quem? As  autoridades portuguesas pediram, no âmbito desta investigação, às autoridades holandesas e, estas demoraram mais de uma ano para responder. Mais de um ano a uma carta rogatória nossa e, tinha sido tão importante à época. 

Agora , esta nova carta que aparece….. há aí um funcionário prisional que diz ter tomado conhecimento da carta, que tomou conhecimento dos detalhes da carta e, entregou a uma Directora e a um agente da PJ …. Esta carta tem detalhes ( eu li a carta, diz HC) muito complicados e só quem estiver dentro do assunto pode saber aquilo mesmo com o processo todo à mostra porque há coisas que vêm na carta que não vêm no Processo. E, eu (HC) acho isso muito estranho. Hoje faz 15 anos e vamos ver o que os Tribunais hão-de dizer mais sobre isso . A questão é saber que a  uma Criança Portuguesa não foi dada a atenção suficiente para a procurar. 
……. Estivemos 13 anos até começar o julgamento…… o que é uma vergonha para qualquer país. 


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Filomena Teixeira não desiste de encontrar Rui Pedro, desaparecido há 15 anos, em Lousada.

Quando Filomena sonha com o filho - o que acontece "na maioria das noites" -, ele não é a criança de onze anos que era quando desapareceu, nem o adulto que será agora, de 26, se estiver vivo. Sente "que é ele" e isso basta-lhe para continuar uma luta que dura há tempo demais para o coração de qualquer mãe. A 4 de março de 1998, Filomena Teixeira viu o filho pela última vez. A 4 de março de 2013, teve a primeira razão para sorrir desde há quinze anos: Afonso Dias, o principal suspeito do rapto da criança de Lousada, foi condenado a três anos e meio de prisão efetiva pela Relação do Porto.
"É o início de uma nova etapa. Podemos finalmente saber o que aconteceu ao nosso filho. Uma coisa é certa: nunca vou baixar os braços, só se morrer. Guardo todas as notícias que saem sobre o Pedro para que no dia em que ele regressar possa ver que nunca desistimos dele", partilha. Filomena é hoje uma sombra do que era antes do dia que lhe alterou a história. "Há uma parte de mim que também desapareceu há quinze anos, que não existe desde então, que está à espera que o Pedro volte para voltar com ele." Filomena repete a expressão ‘quando ele voltar' a cada nova frase, como se renovasse a esperança de cada vez que a diz. No quarto do filho, que mantém com as coisas de criança que ele deixou - "não mexi em nada, tem os brinquedos, as roupas, as fotografias" -, encontra alguma paz para ‘falar' com o filho adulto que espera, um dia, lhe bata à porta de casa para ficar. "Só vou querer que ele me abrace com força e me pegue ao colo quando chegar. Como já é grande vai ter força para isso" - diz, e quase lhe vemos um sorriso.

Um filme mau

"Nos casos de desaparecimento, ao contrário daqueles em que a morte é uma certeza, os pais sentem-se como se estivessem permanentemente dentro de um filme de que não sabem o fim. Às tantas já não sabem se é um sonho ou se é real, de cada vez que acordam ou se deitam acreditam que vão ter uma surpresa positiva, que aquele é o dia em que o filho vai voltar. Porque estes pais acreditam que o filho está vivo, mas ao mesmo tempo não conseguem ter elementos que garantam esta quase certeza", considera o psicólogo clínico Carlos Céu e Silva. "Ao mesmo tempo sentem-se órfãos, roubados pela vida, pelos próximos, por uma sociedade injusta e implacável que não soube fazer justiça. Os pais desaparecem quando desaparecem os filhos. A mãe do Rui Pedro sente que não pode morrer sem saber o que aconteceu ao filho, é como um alimento para continuar viva e não baixar os braços", acredita o especialista em temas ligados ao luto, coordenador técnico da associação A Nossa Âncora. "Nunca passei por essa situação. É muito diferente um filho morrer ou desaparecer. Mas penso que as penas vivas são muito piores do que as penas mortas, e imagino que deve ser terrível não saber se um filho está vivo ou morto", partilha a fundadora e ex-presidente da mesma associação, Maria Emília Pires, que perdeu uma filha num acidente de automóvel.
"Quando um filho morre, é como quem espeta uma faca num porco e ele sangra, sangra muito. Para nós não é uma faca, é um serrote, que todos os dias vai para lá e vem para cá. Nós não sabemos o que aconteceu ao nosso filho e só vamos parar quando soubermos. Temos momentos em que estamos muito em baixo, mas logo a seguir levantamo-nos e continuamos", conta o pai, Manuel Mendonça. Pela casa - "na sala, nos quartos, na cozinha e até nas casas de banho" - há fotografias dos onze anos de vida de Rui Pedro junto dos seus. "Vamos buscar força um ao outro e à nossa filha Carina, de 23 anos, que é uma menina maravilhosa, que desde muito pequena teve de lidar com esta ausência e com a nossa luta. Muitas vezes não lhe demos a atenção e o apoio que ela merecia."

Falta do corpo

A presidente da associação Perdas e Afetos, Lúcia Ferreira, fez uma dissertação de mestrado sobre o luto perante a ausência de cadáver, com base na tragédia de Entre-os-Rios. "É um luto muito semelhante ao das crianças desaparecidas, com a diferença de que quando existem tragédias, ao fim de algum tempo passa-se uma certidão de óbito, no caso dos desaparecimentos não. Quando há um corpo que permite fazer os rituais fúnebres, a pessoa sabe que o seu ente querido está ali. 98% das pessoas com quem falei disseram ter sido importante terem realizado a cerimónia para terem a certeza da morte e aceitarem a realidade da perda, enquanto 95% daqueles que não tiveram oportunidade de se despedir ainda se encontram, doze anos depois da queda da ponte, num processo de luto complicado."
"O ímpeto primário de todos os pais é salvar o filho que está em perigo e esse instinto mantém-se quando não houve confronto com o cadáver. Para um pai ou uma mãe que perde um filho nestas circunstâncias, a não-aceitação é permanente, porque na realidade ele não morreu no coração e na cabeça das pessoas e, portanto, todos os indícios sobre a possibilidade de estar vivo são hipervalorizados. Aceitar que ele não está vivo equivale a recusar ajudá-lo. No limite, é imperioso fazer justiça àquele crime", explica o psicólogo José Carlos Garrucho. "Perder alguém que não se sabe se está vivo ou morto é muito pior porque o processo de luto não pode ser iniciado, ou está constantemente a ser iniciado, porque coexiste a esperança de o voltar a ver. É uma ambivalência terrível", acrescenta.
"Têm sido quinze anos de incerteza e de dor, muito difíceis. Aconteceu-nos uma coisa terrível que não se apaga, nenhum pai devia passar por isto", concorda Manuel. No dia em que desapareceu, Rui Pedro pegou na bicicleta depois de almoçar e passou no escritório da mãe, que ficava em frente à casa onde moravam, pedindo-lhe autorização para sair de carro com Afonso Dias, então com 22 anos, agora condenado. A mãe recusou o pedido e disse-lhe para ir brincar com a bicicleta para um terreno baldio ali ao lado, de onde o conseguia ver da janela. Aquela quarta-feira foi a última vez que o viu. Pensa-se que a criança terá sido aliciada para o encontro com uma prostituta, que sempre confirmou a história. Ao longo dos anos, o caso foi e veio, a reboque de outros desaparecimentos e de imagens daqui e dali que se associavam a Rui Pedro, mas que nunca trouxeram nada mais do que ténues esperanças.
O procurador Vítor Magalhães confessou em tribunal, em maio de 2011, durante o debate instrutório do processo, que as investigações ao caso Rui Pedro, em 1998, "decorreram com ansiedade", prevalecendo os sentimentos de "frustração e angústia" nos que trabalharam no processo. Em 2004, uma segunda brigada da PJ retomou a investigação do desaparecimento, fazendo uma primeira reconstituição dos factos, e em 2008 entra em ação uma terceira brigada, criando pela primeira vez uma equipa específica para lidar com o caso.
Ao longo dos anos, Portugal foi acompanhando a dor desta família, as lágrimas de uma mãe que ora definhava ora se levantava para mostrar que não desiste. "Como estás? Que transformações sofreste? Cresceste muito?", questiona Filomena num blogue criado para o filho. Tudo perguntas que repete e para as quais espera encontrar resposta em breve, com a condenação de Afonso Dias. "Sinto-me agora mais perto dele. Sei que está um homem, como os primos e os amigos que deixou em 1998."