domingo, 13 de janeiro de 2013

Em 2009



 NOTÍCIA 

A VERDADE DA MENTIRA 


A sala de conferências da Biblioteca Municipal de Loulé encheu, a 23 de Janeiro de 2009, para assistir à apresentação do livro "A verdade da mentira", da autoria do ex-inspector da Polícia Judiciária, Gonçalo Amaral, que coordenou a investigação do "desaparecimento" da pequena Madeleine McCann, de um aldeamento da aldeia da Luz, em Lagos, na noite de 3 de Maio de 2007. Mendes Bota foi orador convidado, para falar do autor e da interpretação que fez dos acontecimentos, depois de ter lido o livro. 

Eis um resumo da intervenção de Mendes Bota. 

Gonçalo de Sousa Amaral é, como ele próprio gosta de se reconhecer, um beirão por nascença (natural de Torredeita, distrito de Viseu), lisboeta por emigração, e algarvio por adopção, tendo-se radicado no Algarve a partir de 1986, onde vive com a mulher e as filhas.



Aposentado da Polícia Judiciária a seu pedido em 30 de Junho de 2007, Gonçalo Amaral tem um currículo brilhante de 35 anos de serviço na Administração Pública, 27 dos quais na instituição policial que serviu, sendo o 1º classificado nos concursos a que concorreu, e tendo-lhe sido todos os anos atribuída a classificação de serviço de Muito Bom. 

Licenciou-se em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa, e frequentou uma pós-graduação em Direito Administrativo. No seu currículo, e no seu padrão ético e moral de comportamento, não existem nuvens cinzentas, à luz dos factos, e da verdade provada e julgada. Não estamos, portanto, a falar de um indivíduo qualquer, que se aborreceu com a Polícia Judiciária, e resolveu fazer um livro para ganhar dinheiro, à conta de um caso por cuja investigação foi responsável! 


Não! Este livro é, em razão primeira, um exercício de legítima defesa do seu bom nome, enlameado por uma nebulosa campanha de desinformação e descredibilização de contornos internacionais e ramificação nacional, e por considerar que a opinião pública tem direito a conhecer em profundidade e detalhe a verdade de um caso que apaixonou o mundo inteiro, mas que a interferência do poder político na esfera judicial (só pode ser, não nos façam de ingénuos nem de atrasados mentais) transformou numa gigantesca mentira. 


Este livro não é um romance, mas poderia tê-lo sido, se não fosse totalmente verdade o que nele vem descrito. E a prova maior deste cunho de verdade que ali se espalha cristalinamente, da primeira à última página, é que não foi publicado um desmentido de uma qualquer linha de afirmação que fosse, nem o seu autor foi accionado judicialmente por qualquer pessoa ou entidade que se sentisse injustamente atingido por alguma dessas afirmações. 


A razão, é simples. Este é um livro factual. Assenta em factos descritos nos autos do processo judicial, hoje arquivado. Já será difícil fazê-los desaparecer ou contraditá-los. 


É um livro que fala das suas duas famílias. A mais próxima, do sangue e da afinidade, a família das filhas Inês, Rita e Sofia, Sofia de novo, a sua mulher, sempre presentes nos momentos piores do abandono e da solidão, conforto maior do reduto mais próximo da solidariedade. 
E fala da sua outra família, a Polícia Judiciária, onde habitou mais de metade da sua vida, mas daí transparece uma profunda desilusão, desapontamento, com uma instituição que não tratará os seus servidores com o respeito que a sua dedicação mereceria, na opinião do autor. 


Este livro fala do Algarve também, da sua terra, das suas gentes, da sua história, reflectindo o amor profundo que liga Gonçalo Amaral à Região que o acolheu. 

Para aqueles que gostam de resumos, e não tiverem paciência, tempo ou curiosidade para ler o livro, a última página bastaria para resumir a tese do autor: 

Maddie faleceu a 03/05/2007, à noite, de trágico acidente; 
Ocorreu um crime de simulação de rapto; 
Ocorreu um crime de ocultação de cadáver; 
Existem indícios de negligência na guarda de menores. 

Este livro pode parecer politicamente incorrecto, mas a verdade tem que falar mais alto. E este caso ficou marcado como um MUST – a maior investigação criminal de sempre em Portugal, em mobilização de recursos, uma pressão mediática descomunal, sem precedentes no nosso país. 

Uma mobilização da opinião pública à escala mundial, que suscitou uma onde de “avistamentos”, nenhum deles com sentido ou consequência, por razões que este livro tornou óbvias. 
Mas a forma como este caso foi abafado, só pode indiciar, aí sim, uma inaceitável promiscuidade entre a Política e a Justiça. 

Gonçalo Amaral foi afastado da investigação em 2 de Outubro de 2007. Pôs-se fim à investigação. Arquivou-se o inquérito. No país com a Justiça mais lenta da Europa, houve pressa evidente em abafar este caso de uma verdade inconveniente. Ficam no ar muitas interrogações: Quem desejou isto? Quem pressionou? Que poderes estão por detrás disto? Como diz o autor, “houve política a mais e polícia a menos”. Qual o verdadeiro papel da diplomacia britânica e do seu actual primeiro-ministro? 
Porquê este afã, de descredibilizar a investigação criminal portuguesa e o seu responsável, a partir do momento em que apontou num sentido que não o do rapto de Maddie? 

Todo este processo é uma sucessão de ESTRANHEZAS: 

Apartamento não arrombado. Um pretenso raptor a fugir por uma janela de difícil acesso com uma criança ao colo. 
Registos telefónicos dos telemóveis dos McCann apagados de 27/4 a 4/5. Não receberam nem fizeram chamadas a ninguém. Alguém acredita nisto? 
Os gémeos tinham sono profundo, ou estavam sedados? 
Porque é que a reconstituição nunca se efectuou? 
Postura demasiado descontraída dos McCann em diversas ocasiões. 
A mãe de Maddie deixou os gémeos a dormir sozinhos, quando saiu para a rua a dar o alarme, deixando a janela aberta com um raptor nas redondezas? 
Porque razão a família Smith, que reconheceu Gerald McCann com uma criança ao colo na noite fatídica, nunca foi chamada a Portugal para declarações ou reconstituição? 
O quarto estava demasiado arrumado, indiciando uma alteração intencional da cena do crime. 
Esquema de vigilância daqueles pais todos – duas listas diferentes e contraditórias entre si? 
Porque nunca foram fornecidos os extractos dos cartões de crédito dos McCann? 
Ou o original dos cadernos de Kate? 
Para quê um assessor de imprensa de alto gabarito? 


O processo de averiguações demonstra um enorme rol de CONTRADIÇÕES – Nos depoimentos dos pais e amigos, nas horas, nas visitas. Sobre o “estranho” com a criança nos braços. As fragilidades do testemunho de Jane Turner 

A tese do rapto foi defendida pelos pais à viva força, desde o primeiro segundo. Pelo meio passaram à tese da morte, para depois regressarem à tese do rapto, à revelia de todos os indícios que entretanto se foram revelando. 

Entretanto, foram desfilando: 

MURAT – o suspeito conveniente, depois ilibado 
DAVID PAYNE – uma conversa de pedófilo, que ficou sem investigação 
KRUGEL – o sul-africano e a sua famosa máquina descobridora de cadáveres, que não descobriu coisa nenhuma 
EDDIE e KEELA, OS CÃES MARAVILHA – Especialistas a farejar odor a cadáver e sangue humano, com mais de 200 casos de sucesso no currículo. Ficaram doidos no Apartamento 5A, na vivenda, no peluche de Maddie, nas roupas de mãe, na bagagem do jeep dos pais. 
FSS – O LABORATÓRIO INGLÊS. Que estranho e lento comportamento. Amostras de sangue apontaram para ADN de Maddie a 50%. Concluíram inconclusivamente, quando tudo apontava em sentido contrário no relatório preliminar 
POLÍCIA INGLESA – Da franca colaboração, à vigilância da investigação e ao desaparecimento súbito de cena. Tudo muito estranho. 

Gonçalo Amaral refere aquele que terá sido o erro capital da investigação. O casal McCann foi tratado com privilégio, colocado acima de qualquer suspeita desde o início, com subserviência e receio de ferir susceptibilidades diplomáticas. Quando tudo deveria apontar para que não se afastasse liminarmente a possibilidade de serem suspeitos. À luz das estatísticas inglesas, os familiares próximos são responsáveis pela maior parte dos raptos, e até por 82% dos crimes trágicos. Se os McCann tivessem sido, desde o início, colocados sob escuta e vigilância, talvez o conhecimento dos seus movimentos, contactos e comunicações naqueles dias que se seguiram à trágica ocorrência, tivessem contribuído para um desfecho diferente. 

Esta é uma opinião, a minha opinião, depois de ter lido com cuidado “A Verdade da Mentira”. Foi apenas um reforço substancial de uma percepção já adquirida através da cobertura mediática que rodeou este caso. 

José Mendes Bota