terça-feira, 17 de julho de 2012

Pat Brown no Algarve em Fevereiro de 2012



















Suplemento integrante do jornal «Algarve 123» n.º 717 que não pode ser vendido separadamente.

23/02/2012


viva@algarve123.com


Pat Brown

Chegou da capital dos Estados Unidos a
Portugal com uma mala de viagem bastante
usada e um detector de metais. Na bagagem,
trouxe ainda uma sonda para pesquisas no
solo e uma pá. Pat Brown, 56 anos, profiler
criminal, autora e colaboradora de vários
programas televisivos nos Estados Unidos da
América, veio em missão por conta própria.
A notícia da sua viagem ao Algarve fez eco
nas redes sociais, dando origem a mensagens
de apoio e de escárnio. Nada que afectasse
a determinação de Pat Brown. “Isto não tem
a ver com publicidade para a minha pessoa.
Apenas vim à procura da verdade”, disse-nos
em entrevista. Uns dias antes, Brown esteve
em Lisboa, para falar com Gonçalo Amaral e
outros investigadores que também já sofreram
as consequências por procurarem desvendar
um dos maiores mistérios da actualidade.

Uma das nossas primeiras perguntas foi por que motivo
uma investigadora criminal norte-americana – e celebridade
televisiva – sentiu necessidade de atravessar o Atlântico
até Portugal para rever o caso de uma criança que está
desaparecida há quase cinco anos?
“Por duas razões”, respondeu. “A primeira é que porque
sempre estive muito empenhada na busca pela verdade.
Isso não é algo que me faz popular, mas é algo que respeito
mais do que a minha própria reputação, até porque este
caso ameaça prejudicar a forma como as investigações sobre
pessoas desaparecidas são feitas.”
“Temos aqui uma situação na qual há dois pais que se
recusaram a cooperar totalmente com a investigação policial
– que se recusaram a responder a questões, que mudaram as
versões dos seus depoimentos e escaparam à jurisdição – e
que depois contaram a sua história da forma em que querem
que acreditemos, levaram-na à imprensa, e pediram ao
público para doar dinheiro para um fundo destinado a pagar
as despesas da procura por uma criança que, estatisticamente
falando, muito provavelmente já estará morta”, argumenta.
“Posso compreender que pais em luto possam fazer coisas
insensatas, mas nunca tinha visto antes pais portarem-se
assim. As suas atitudes abriram as portas à especulação”, diz.
“A outra razão é que quero demonstrar apoio para com
Gonçalo Amaral e a liberdade de expressão.”
Como é sabido, o ex-inspector da Polícia Judiciária que
na altura coordenou a investigação criminal do caso, tem
um litígio legal com Kate e Gerry McCann, por causa da
publicação do seu controverso livro «Maddie, A Verdade
da Mentira». Está acusado de difamação, porque o livro
sustenta a sua tese que a filha do casal britânico morreu no
apartamento 5A na noite de 3 de Maio de 2007. O julgamento
estava inicialmente marcado para os dias 9 e 10 de Fevereiro,
mas acabou por ser adiado.
Depois de ser ter encontrado com Amaral, Pat visitou o local
onde tudo aconteceu em busca de novos dados. Perguntamoslhe
se encontrou alguma coisa na Praia da Luz?
“Sim, definitivamente. Descobri mais sobre a situação na
rua. Descobri mais sobre as fechaduras e as portas e como
funcionam; como a persiana e a janela seriam impossíveis de
abrir a partir do exterior, e também sobre o tipo de terreno
aqui. Mas no fundo, a minha linha de pensamento ficou na
mesma. Há duas respostas simples para este crime.”
“A resposta mais simples é que Madeleine foi raptada por
um predador local, e neste caso, ela teria sido morta, quase
de certeza, nas duas ou três horas imediatamente a seguir. A
segunda resposta mais simples é que ela morreu num trágico
acidente e o corpo foi descartado.”
“Para eliminar a segunda resposta mais simples, temos de
estabelecer, sem quaisquer dúvidas, que se tratou de um rapto
– e isso não aconteceu!”
Então, perguntamos a Pat Brown se acredita, tal como
Gonçalo Amaral, que é necessária uma reconstituição da noite
em que a criança de 3 anos de idade desapareceu?
“Obviamente que sim! E isso é algo que eles se têm
sistematicamente recusado a fazer – todos eles, os McCanns
e o grupo de amigos que estavam no restaurante Tapas!
Os McCanns em particular têm sido os seus próprios
piores inimigos. Eles poderiam providenciar respostas de
várias formas, ao participarem numa reconstituição, ou a
submeterem-se a um teste no polígrafo. Portanto, como vê,
isto tem de ser eliminado para que a primeira resposta mais
simples tenha as mais altas probabilidades”, diz.

O próximo livro a ser publicado pela profiler
criminal Pat Brown vai ter o intrigante
título «Only the Truth». É uma obra de
ficção que narra a história de um homem
que se apaixona por uma mulher que vai
ser presa por homicídio. No prelo está
também um livro não-ficcional para pais
com o título «How to Save your Daughter’s
Life». Finalmente, 2013 vai ser o culminar
de um longo projecto de pesquisa histórica
sobre o assassinato da rainha egípcia
Cleópatra. O livro, a publicar, revela todas as
descobertas que fez durante a produção de
um documentário para o Discovery Channel,
em 2004.
“Only the Truth” is intriguingly the title of
the next book to be published by criminal
profiler Pat Brown. A work of fiction, it is
a story about a man who falls in love with
a woman who is later arrested for murder.
Hot on its heels will come a non-fiction
handbook for parents, entitled: “How to
Save your Daughter’s Life”, and then in
2013, Brown´s long-running research
project, “The Murder of Cleopatra” will
be published – her historical investigation
inspired by profiling discoveries she made
during a documentary for the Discovery
Channel in 2004.

23/02/2012

“Outro aspecto que verdadeiramente me incomoda é a
promoção da mitologia. As redes de pedofilia e de sexo infantil
são os novos papões. Cada pai tem vindo a ser convencido
que deve temer a possibilidade da sua criança cair nestas
situações – mas a verdade é que estas redes não operam em
complexos hoteleiros. Se uma rede de pedofilia quer uma
criança, agarra uma na rua, sobretudo em meios mais pobres
e desfavorecidos. Não vai roubar uma criança da classe média
alta da sua cama de férias – particularmente quando – e se
é que as histórias a que temos vindo a ser convencidos a
acreditar são verdadeiras – todos os pais estavam a saltar da
mesa para os seus quartos a cada 15 minutos para verem se
as crianças estavam bem! Qualquer raptor perderia a paciência
a pensar quando é que teria uma oportunidade de entrar no
apartamento!”
A experiência de Brown enquanto profiler criminal começa já
depois dos 40 anos de idade. Antes, trabalhou como intérprete
de linguagem gestual nas urgências de vários hospitais durante
mais de uma década.
Durante esses anos, Brown diz ter “visto tudo”: ferimentos
provocados por tiros de caçadeiras, mortes, violações,
punhaladas, vítimas e vilões. A experiência ensinou-lhe muito
sobre a vida, o crime e a circunstância – e certo dia, viu-se ela
própria envolvida num caso. Durante quatro semanas, alugou
um quarto a um homem que acredita que deveria ter sido o
principal suspeito de um brutal homicídio sexual. Esta má
experiência marcou o início do seu interesse em traçar perfis e
em como os casos de homicídios eram tratados. Demorou seis
anos até a polícia finalmente interrogar o homem e declarálo
suspeito no dito assassinato. Foi também este caso que a
levou a especializar-se numa profissão que, invariavelmente,
só é chamada à acção quando já é demasiado tarde.
“Uma das minhas ambições é fazer dos profilers um prérequisito
em todas as forças policiais. Precisamos de ser
chamados logo de início. E os locais dos crimes precisam de
ser melhor processados.”
“Se os pais tivessem sido logo separados quando a polícia
chegou ao local, tal como todos os outros envolvidos, teria
sido muito mais fácil verificar todos os depoimentos e versões,
e poderia ter sido estabelecida uma verdadeira cronologia
dos factos”. “Neste caso, os McCanns e os seus amigos
tiveram vários dias para conferenciarem uns com os outros. O
resultado é que, talvez de modo às coisas parecerem melhores,
ou para explicarem coisas que são embaraçosas, eles talvez
tenham adulterado a cronologia para além daquilo que os
poderia comprometer”, diz. Isto é, se os McCanns estiveram
envolvidos na morte da sua filha, tiveram uma oportunidade
prévia de organizarem as suas histórias.
Em última análise, será que alguma vez este caso será
resolvido?
“Se puder ser provado que o Gerry McCann estava na mesa
do jantar no restaurante Tapas entre as 9h15 e as 9h55”
– hora em que um homem muito parecido com ele foi visto por
uma família irlandesa, a carregar ao ombro uma criança em
pijama cor-de-rosa, em direcção à praia – “então, isso seria a
prova que realmente teria havido um rapto.”
“Se os cães que detectam vestígios de cadáver estiverem
certos” – foram trazidos ao local três meses depois do
desaparecimento de Madeleine, e reagiram positivamente à
possibilidade de um corpo morto ter estado no apartamento
– “então, não houve qualquer rapto.”
E para que estes dois detalhes possam ser determinados
com rigor, voltamos ao raciocínio de Gonçalo Amaral que se
tem batido pela reconstituição do que aconteceu – utilizando
todas as partes envolvidas.
“Mas, pelo que sei, não me parece que isso irá acontecer em
breve!”, lamenta Brown, abanando a cabeça. “Honestamente,
não sei o que a Metropolitan Police está a fazer com a sua
revisão actual do caso em curso, e que está a custar milhões
de libras. Pelo que vejo, eles ainda não começaram por onde
deveriam ter começado – com uma reconstituição da noite do
desaparecimento”.
“É aí que está a melhor chave para chegar à verdade!”