segunda-feira, 23 de abril de 2012

Agatha Christie's Partners in Crime -



The Affair of the Pink Pearl (Part 1)



http://pt.wikipedia.org/wiki/Agatha_Christie




POIROT SALVA O CRIMINOSO

PRÓLOGO   

Elinor Katharine Carlisle. comparece perante este tribunal acusada de ter morto Mary 
Gerrard no dia 27 de Julho passado. 

Confessa-se culpada ou não.» 

Elinor Carlisle estava de pé, muito direita, a cabeça levantada. Era uma cabeça graciosa, de 
contornos finos e bem definidos. Os olhos eram de um azul intenso, o cabelo preto. 
As sobrancelhas tinham sido reduzidas a uma linha leve e fina. 

Houve um silêncio - um silêncio bastante marcado. 

Sir Edwin Bulmer, advogado de defesa, sentiu receio, e pensou: «Meu Deus, vai confessar-
se culpada... Perdeu a coragem. . .» Elinor Carlisle, entreabrindo a boca, disse: «Estou 
inocente.» O advogado de defesa recostou-se para trás. Passou um lenço pela testa, e 
pensou que fora por um triz... 

Sir Samuel Attenbury estava de pé, expondo o caso ao tribunal. 

«Ex.mo Sr. Dr. Juiz, srs. jurados, no dia 27 de Julho, às três e meia da tarde, Mary Gerrard 
morreu em Hunterbury, Maidensford...» A voz continuou, sonora e agradável de ouvir. 
Embalava Elinor a ponto de quase perder consciência. Da narrativa simples e concisa só 
uma ou outra frase penetrava no seu consciente. 

...Caso particularmente simples e claro... 
«...Compete a este tribunal... esclarecer o motivo e a oportunidade. . . 
«...Ninguém, ao que parece, tinha motivo algum para matar a infeliz Mary Gerrard, senão a 
acusada. Era uma rapariga com um excelente feitio, de quem todos gostavam e sem ter, por 
assim dizer, qualquer inimigo...» Mary, Mary Gerrard! Que longínquo e irreal tudo parecia 
agora. . . 
«..Chama-se a vossa atenção especialmente para os seguintes pontos: 

1. Que oportunidades e meios tinha a acusada de administrar o veneno? 
2. Que motivo tinha para o fazer?  
«...Compete-me trazer perante vós testemunhas que vos possam ajudar a chegar a uma 
conclusão verdadeira sobre estas questões... 
«...Quanto ao envenenamento de Mary Gerrard, tentarei mostrar-vos que ninguém tinha 
oportunidade de cometer este crime senão a acusada...» 
Elinor sentia-se como que envolvida num denso nevoeiro. 
Palavras soltas rompiam essa bruma. 
«. . .Sanduíches. . . 
«...Conservas de peixe... 
«...Casa vazia...»  

As palavras atravessavam a espessa cortina que envolvia os pensamentos de Elinor - qual 
picadas de alfinete através de um véu pesado que a isolava... 

O tribunal. Rostos. Filas e filas de rostos! Certo rosto com um grande bigode preto e olhos 
espertos. Hercule Poirot, de olhar pensativo, cabeça inclinada um pouco para o lado, 
observava-a. 

Ela pensou: está a tentar compreender qual a verdadeira razão por que fiz aquilo... Está a 
tentar penetrar no meu espírito para compreender o que pensei - o que senti... 
O que senti... ? Uma nuvem toldou-lhe a vista e teve uma leve e desagradável sensação de 
choque... O rosto de Roddy - o rosto querido, com o seu nariz afilado e a boca revelando 
sensibilidade... Roddy! Sempre Roddy - lembrava-se dele desde pequena... desde aqueles 
tempos em Hunterbury por entre as framboesas, ou no parque, ou lá em baixo próximo do 
regato. Roddy--Roddy--Roddy... 

Outros rostos! A enfermeira O'Brien, a boca ligeiramente aberta, o rosto fresco e sardento 
muito espetado. A enfermeira Hopkins de aspecto impecável - impecável e implacável. 
O rosto de Peter Lord Peter Lord - tão amável, tão simpático tão - tão reconfortante! Mas 
parecendo agora - o quê? - aflito? Sim, era isso  - aflito ! Preocupado - terrivelmente 
preocupado com tudo aquilo! Enquanto ela própria, a figura central não se preocupava 
nada! Ei-la, bastante calma e indiferente, perante um tribunal, acusada de assassínio. 
Qualquer coisa se moveu; a cortina que lhe envolvia o cérebro tornou-se mais leve, mais 
transparente. No tribunal!... 
Muita gente... 
Gente inclinada para a frente, a boca um pouco entreaberta, os olhos cheios de curiosidade, 
fixos nela, Elinor, com uma satisfação de vampiros, ouvindo, com uma espécie de prazer 
lento e cruel, o que aquele homem alto com nariz de judeu dizia a respeito dela. 
«Os factos, neste caso, são extremamente fáceis de seguir e não estão em discussão. Vou 
apresentá-los de uma maneira simples. Começando pelo início...» Elinor pensou: 
«O início... O início? Foi no dia em que veio aquela horrível carta anónima! Sim, foi esse o 
início...»