domingo, 21 de agosto de 2011

O inspector dos casos difíceis


" Em Outubro, quando foi afastado da investigação do caso Maddie, Gonçalo Amaral começou a escrever ‘A Verdade da Mentira’. Na semana em que o livro chegou às bancas, o ex-inspector, agora aposentado, recordou momentos ao longo
de 26 anos na PJ


Preguiça. Incompetência. Longos almoços inebriados pelos sucos de Baco. A imprensa ao serviço de Sua Majestade teve o copo sempre cheio ao coroar a Polícia Judiciária com rótulos de casta duvidosa. A quilómetros das ilhas britânicas, a consciência esteve descansada em igual proporção aos Marlboro em tamanho XL que saltam do maço: a 100%.

No dia em que abandonou a Directoria de Faro da Polícia Judiciária, para onde seguiu depois de ter sido exonerado do caso Maddie, Gonçalo Amaral trocou o nó da gravata pelos laços de afecto. Dedicou-se ao caso mais sério no curriculum: a família. Espectadora atenta e participante por inerência indesejada. 'A minha mulher e as miúdas viveram muito o caso Maddie. Também a minha filha mais velha, que está em Coimbra. São coisas que marcam pelo mediatismo'. Reservou ainda tempo para quem sentiu na ponta das canetas e gravadores a torreira de um enigma que ainda hoje bronzeia a curiosidade. 'Senti obrigação de prestar a minha gratidão por aqueles que durante este caso estiveram muito tempo ao sol – chuva não havia naquela altura! – muitas horas, menos confortáveis do que nós, que eram os jornalistas, que de certa forma defenderam este País. Em Faro, convidei todos os jornalistas que ali estavam para uma cerveja, ali num pequeno café onde convivemos todos. Vinho não era, que não bebo, ao contrário do que disseram!'

A palavra ‘apoio’ fermentou. Passeiam-se pelas ruas as saudações e abraços ao ex-coordenador da PJ de Portimão, desde 2 de Outubro de 2007, dia em que completou 48 anos. E em que foi afastado da investigação mais mediática de sempre em Portugal. Mensagens solidárias de todo o Mundo inundaram o computador. Gonçalo relativiza a maré cheia de e-mails e de ‘passou-bem’. 'Acho que é exagerado, que não merecia tanto. Só tenho feito o meu trabalho, como polícia e profissional. A minha postura é essa. Isso foi gratificante e de alguma forma era necessário responder a essas pessoas que até hoje estão à espera de ter uma opinião objectiva sobre o que se pode ter passado naquele dia, àquela hora. É esse o fim do livro, contribuir para a tal descoberta da verdade e satisfazer a curiosidade de milhões de pessoas.'

Assim reza ‘A Verdade da Mentira’, ou uma súmula de factos sem juízos de valor, garante Amaral, a quem os leigos da moda, peritos em etiqueta do humor, classificaram de ‘Inspector Boss’. 'Isso é uma piada. Ouvi umas bocas que andava mal vestido no departamento. Eu, mal vestido? Até ando de roupinha Boss, disse aos colegas. Não querendo fazer publicidade à marca, é uma questão de qualidade. Mas é Boss em saldos!' Perdoem-se os desabafos comezinhos. Os faits-divers sobre monogramas em camisas. Os exames à elegância. 'Temos que dizer algumas baboseiras para aliviar a tensão', justifica. Aprovado. Como aprovada ficou, com boas notas e gosto pela matéria, a Filosofia do Direito na faculdade, promovida à condição de bússola. Dos livros reteve máximas que viraram guião de conduta. 'Algumas tenho sempre. Uma delas de Ortega y Gasset, que tem a ver com a nossa actividade profissional, de investigação: 'Quando o coração sobe à cabeça, a emoção toma o lugar da razão e explode a paixão'. Temos que evitar que a emoção tome o lugar da razão.'

No rescaldo da saída da polícia, a 30 de Junho, as emoções estão ao rubro. A sensação é 'de orgulho'. Os planos no futuro próximo incluem sopas, descanso, e a resposta a algumas propostas de trabalho. 'Não estou reformado, estou aposentado! Como espero ficar ligado de alguma forma à investigação criminal, não como detective mas mais de consultadoria, poderei ter alguma intervenção pontualmente nesta área', avança o ex-coordenador. Ao longo de 26 anos de funções, as histórias dariam pano para as mangas de mais um livro. Quem sabe. Um dia. 'O primeiro caso de polícia foi na droga. Recordo-me que tinha acabado de nascer a minha filha e tive que ir para o Algarve em 84 por causa de umas apreensões. Só voltei a vê-la já devia ter mais um mês em cima. Ela nasceu em Dezembro e a dia 2 de Janeiro estava no Algarve. São situações em que a família fica para trás. Mas dá orgulho ser polícia. Somos um pouco andarilhos...'

De caso em caso. Crianças. Adultos. Idosos. Pessoas. O crime, como a investigação, compensa todas as etapas no ciclo da vida. Fica a memória, 'empírica', dos avanços e recuos no gabinete ou no terreno. 'Houve muitos casos interessantes. O caso Mariana, nos Açores, o caso Joana...' Pelo meio, alguns dissabores. Gonçalo Amaral e mais quatro inspectores são acusados pelo Ministério Público de Faro no caso das alegadas agressões a Leonor Cipriano no âmbito do caso Joana. Aguardam pela marcação da data de julgamento. 'As acusações foram falsidades. Sou profissional. Como polícia tenho que ouvir essas coisas', desdramatiza. 'Quando se entra na via do enxovalho e difamação é que algo está errado. No caso Maddie passou-se um pouco isso. Tentaram desestabilizar a investigação atacando-me a mim e a própria Polícia Judiciária, o que não é normal', acrescenta.

Para além dos comentários aos desempenhos sob a égide da identificação e da arma de polícia, que 'raramente usava', os tímpanos pronunciam-se sobre outra imagem de marca: o bigode. 'Já ouvi dizer que o Herman José diz que estou um pouco boneco! Usei bigode durante muitos anos, desde que entrei para a polícia. Em 2002 tinha um bigode pequeno mas apanhei uma lâmina à mão e cortei-o. Mas não foi por necessidade de mudar de visual. Alguém promete que corta a barba quando ganha um campeonato mas não teve nada a ver com isso! Vivi muito tempo sozinho. Costuma-se dizer que com uma mulher ao nosso lado andamos mais cuidados. Nota-se o toque feminino'.

Outras associações saem goradas. A incursão na polícia não se inspirou nos romances de Agatha Christie. Nas obsessivas idiossincrasias de Poirot ou no estilo pitoresco da vetusta Miss Marple. 'Na altura era uma actividade interessante. Eu vivia ao pé do prédio onde vivia também o director nacional da Polícia, o Lourenço Martins, nos Olivais. De alguma forma as notícias que saiam na altura sobre a PJ incentivaram-me. Começa aí o combate ao banditismo', recorda Gonçalo Amaral, nascido em 2 de Outubro de 1959 na aldeia de Torredeita, a 10 quilómetros de Viseu, de onde saiu aos dois meses e meio, rumo à capital. A família instalou-se na Amadora. Depois no Barreiro. Finalmente, no bairro lisboeta dos Olivais, onde ainda mantém casa. Regressou à terra natal com 14 anos. 'Gostava muito de lá ir nas férias, por altura das vindimas, os meus tios tinham lá terrenos'.

Em 1981 trocou o curso de Engenharia pelo de agentes da PJ. 'Iniciei Engenharia no ISEL. Depois entrei para o Técnico mas não para Electrotecnia. Só consegui entrar para a segunda opção, Mecânica'. Gonçalo encarreirou pela formação policial. Acumulou cursos de Sociologia, Psicologia, Psiquiatria e Investigação Criminal na Escola de Polícia de Lisboa. 'Começo em 82. Em 86 vim para o Algarve, na altura para a inspecção de Faro, onde trabalhava com drogas. Em 91 fui para os Açores, como agente ainda, em Ponta Delgada. Voltei em 93 e fui para o Algarve. Estive lá um ano e regressei a Lisboa'. Em 1997 licenciou-se em Ciências Jurídicas e Criminais na Faculdade de Direito de Lisboa. Na Judiciária há 17 anos ascendeu à categoria de inspector-chefe em 1998, quando parte de novo para as ilhas açoreanas. No ano seguinte regressou ao continente. 'Fiz o estágio de coordenador e fui para o Algarve de vez'.

Casado pela segunda vez, o ex-coordenador da PJ de Portimão, onde vive actualmente, tem três filhas. A mais nova com quatro anos, a mesma idade de Madeleine McCann. A mais velha 23, fruto da primeira relação, está a fazer mestrado em Direito Penal em Coimbra. A partir de Setembro, Gonçalo Amaral inicia o estágio para entrar na Ordem dos Advogados. Quando os papéis da reforma chegaram a casa telefonou à mulher. A informação ficou dada: 'Já está'. No cômputo final, 'há um misto de dever cumprido e alguma tristeza'. Nessa mesma noite, o encontro com a almofada, teve um desfecho sem mesclas. 'Dormi bem'.

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