quinta-feira, 30 de junho de 2011

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QUINTA-FEIRA, 30 DE JUNHO DE 2011

A todos os outros Angélicos



A morte de Angélico Vieira veio provar uma coisa de que há muito eu já tinha a certeza: as pessoas são tratadas pela comunicação social como números em prol das audiências. E mais: parece que o Salvador Caetano, ao lado de Angélico, era comparável ao gordinho da escola primária de quem todos se esqueciam no recreio.

O acidente e a consequente morte do músico e actor chocaram metade do país e eu, que também sou humano, não fui excepção. Não que fosse fã do seu trabalho, apesar de saber reconhecer o mérito quando assim deve ser, mas situações destas devem fazer-nos pensar e, se for o caso, abrandar os nossos excessos e comportamentos.

Aquilo que me faz confusão e que contraria tudo aquilo que desde sempre me ensinaram, é chegar à conclusão de que nem as mortes das pessoas que anualmente se contabilizam nas estradas portuguesas as torna semelhantes e muito menos dignas de um tratamento jornalístico ao nível dos ídolos que as próprias televisões fabricam. E eu compreendo isso: as figuras públicas vendem e nós não. Aí está!

A cobertura a que se prestam os órgãos de comunicação social nesta e em situações idênticas é exagerada, esgotante e previsível. Quem não se lembra das imagens repetidas até à exaustão da morte súbita de Miklos Féher? Quem não se lembra da exposição mediática do desaparecimento de Madeleine McCann? Ou, mais recentemente, das notícias do acidente que envolveu Sónia Brazão?

E eu pergunto: então e as mães - chamemos-lhes anónimas - das crianças desaparecidas - também elas anónimas - que tudo dariam para expor, até à exaustão, o caso nas televisões? E as crianças vítimas de violência doméstica? Não seriam estes casos igualmente dignos e até mais justificáveis de uma cobertura semelhante?

Eu recordo que, precisamente na mesma altura em que as notícias sobre o acidente de Angélico nos eram impingidas, morrera um homem com 85 anos, empresário visionário e com sentido de liderança, responsável pela introdução da Toyota em Portugal na década de 60, um dos fundadores do BCP e BPI e que preferia o seu recanto às luzes da ribalta. O seu nome era Salvador Caetano e a comunicação social, na sua banal superficialidade, decidiu que a sua morte não era merecedora de um tratamento igual à obra que produziu.

Quanto a mim, eu acho que é tanta a previsibilidade, a hipocrisia e a arrogância com que se serve a comunicação social dos ídolos que ela própria fabrica que, no fundo, o que há a fazer nestas situações, como já todos reparámos que assim é, é substitui-los por outros que lhes garantam novamente, seja por quanto tempo for, o lugar que todas as estações procuram.

E isso porque, ao que parece, na batalha dos números e na ânsia do poder, nem a morte nos torna iguais.

Rui André
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